It's been a long time...
Depois de mais de um ano resolvi reativar o blog por uma causa especial para mim - a minha própria angústia.
Eu sei que não deveria significar muito a aprovação do estatuto do nascituro pela comissão de finanças, vez que em teoria não se analiza o mérito da lei por lá, apenas a sua viabilidade de ingressar no orçamento. Mas significa.
Significa que deputados, representantes do poder público e defensores da Constituição olharam para aquilo e pensaram que era totalmente ok a ideia de dar ajuda de custo para criar filhos de vítimas de estupro.
Seres humanos olharam para aquele pedaço de papel e simplesmente ignoraram o tamanho da mancha de sangue que ele carrega, os gritos que ele produzirá, a volta à masmorra para a mulher que ele visa.
O desinteresse popular pela política está criando um monstro - Um monstro organizado e ativo que faz de tudo para que a sua agenda retrógrada seja imposta a todos, mesmo para aqueles que não comungam da mesma fé. Aliás, quem não comunga da mesma fé é ímpio, eles são os escolhidos, os mais próximos de Cristo, os especiais.
Mais do que ver o Feliciano como presidente da CDH ver essa PL se movendo pelas engrenagens do Congresso me deixou muito desiludido com o caminho que escolhi. Eu sou um idealista e fiz direito por idealismo por acreditar que poderia ser uma peça que faria a engrenagem do meu país ir a frente, não por patriotismo mas por acreditar nos ideais de uma vida plena em sociedade para todos, independente de nacionalidade. E o que vejo à minha frente é um muro de intolerância e retrocesso.
Tudo o que os grupos mais retrógrados do neopentecostalismo quer é criar um sentimento de nós contra eles, de João contra os Romanos, dos portadores da verdade contra os corrompidos pelo demônio. Como ganhar uma batalha que para o adversário é uma guerra santa, e para ele nada importa além da palavra de seu líder?
As eleições de 2010 criaram um monstro quando Dilma e Serra se estapearam para ver quem era o mais carola, numa tentativa rasa de ambos para tentar amealhar o voto evangélico da Marina. Agora as pautas que a bancada evangélica mais preza se tornaram centrais na nossa política, mesmo em tempos de economia difícil.
Cabe a nós, defensores do estado laico, jogar o jogo deles. Se eles fazem marcha do ''chora capeta'' em Brasília, façamos nós a marcha da tolerância. Mostremos nas urnas que candidatos com propostas ao menos de não retrocesso tem espaço para crescer. Vamos tirar os 'escolhidos' de seu trono de ouro. É fazer isso nos próximos 15 meses ou garantir mais 4 anos de constantes ameaças aos direitos civis mais básicos que a declaração dos direitos dos homens e a nossa Constituição consolidaram.
Irônico como os que se dizem emanar da luz de cristo são os que querem nos levar à idade das Trevas.
Washington dizia que a democracia são dois lobos e uma ovelha decidindo o que comer para o almoço. Mas e quando não sobram mais ovelhas, o que acontece?
quinta-feira, 6 de junho de 2013
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Legal.
Estou a poucos meses da minha formatura em direito, ganharei o fantástico título de doutor sem doutorado, arte de uma terra onde o título é status, não formação acadêmica.
Mais do que isso, me colocarei fora da população economicamente ativa, desempregado, quer dizer, desempregado não, formandos em direito deram um nome mais legal pra isso - concurseiro.
Pejorativamente serei chamado do cara que só estuda, como se estudar fosse algo frugal e de menor importância, mas, o que as pessoas que me chamarão assim estão certas em dizer é de que eu de fato não estarei ganhando dinheiro para estudar. E é assim que o sucesso em nossa sociedade é medido, pela quantidade de dinheiro que ganhas, legal?
Mas essa nem é a pior parte, a pior parte é que eu não saio da faculdade super empolgado em tentar ser promotor, motivo pelo qual entrei na faculdade. Preciso de ter 3 anos de prática jurídica para poder ser promotor. Então eu tenho que guardar toda essa animação em agir e fazer a diferença, guardá-la com cuidado e lembrar que ela um dia existiu em algum momento de 2015. Legal.
Agora minha realidade é virar analista ou técnico judiciário, preciso de um fluxo de caixa para financiar minhas ambições, ou seja, tenho que fazer uma coisa que eu não quero, onde não serei nem um pouco feliz, dada minha pouca vontade de realizar a função em questão, para poder esperar o tempo passar até que a coisa que eu realmente quero seja atingível. Legal.
E é bom que eu passe, senão o que me restará é ser escravogado de alguma firma, onde eu trabalharei 12 horas por dia para ganhar... bom é bem pouco para quem estuda 5 anos e trabalha 12 horas por dia, te garanto. Legal.
Mais do que isso, me colocarei fora da população economicamente ativa, desempregado, quer dizer, desempregado não, formandos em direito deram um nome mais legal pra isso - concurseiro.
Pejorativamente serei chamado do cara que só estuda, como se estudar fosse algo frugal e de menor importância, mas, o que as pessoas que me chamarão assim estão certas em dizer é de que eu de fato não estarei ganhando dinheiro para estudar. E é assim que o sucesso em nossa sociedade é medido, pela quantidade de dinheiro que ganhas, legal?
Mas essa nem é a pior parte, a pior parte é que eu não saio da faculdade super empolgado em tentar ser promotor, motivo pelo qual entrei na faculdade. Preciso de ter 3 anos de prática jurídica para poder ser promotor. Então eu tenho que guardar toda essa animação em agir e fazer a diferença, guardá-la com cuidado e lembrar que ela um dia existiu em algum momento de 2015. Legal.
Agora minha realidade é virar analista ou técnico judiciário, preciso de um fluxo de caixa para financiar minhas ambições, ou seja, tenho que fazer uma coisa que eu não quero, onde não serei nem um pouco feliz, dada minha pouca vontade de realizar a função em questão, para poder esperar o tempo passar até que a coisa que eu realmente quero seja atingível. Legal.
E é bom que eu passe, senão o que me restará é ser escravogado de alguma firma, onde eu trabalharei 12 horas por dia para ganhar... bom é bem pouco para quem estuda 5 anos e trabalha 12 horas por dia, te garanto. Legal.
sábado, 7 de abril de 2012
Vida porteña
Pontinhos sobre meu pulinho na saída do Mar del Plata.
- Os argentinos estão falidos há uns 10 anos, mas ainda assim Buenos Aires tem um metrô maior e melhor do que qualquer um no Brasil, ainda que esteja feio demais. Aliás, nem metrô nem ônibus são caros, 1,25 reais e 0.65 centavos a passagem respectivamente.
- A vida cultural dos caras é impressionante.
- Não me senti inseguro mesmo com muita mendicância e gente estranha. E parece que nem o argentino sofre com a violência, ainda que maior.
- O papo sobre as Malvinas por lá está chegando ao nível da psicose, domina os noticiários e as conversas, é totalmente irritante. Anglofobia on the rise.
- Eles são loucos, os argentinos, seja para atravessar uma rua ou para ir num show de rock. E essa loucura junta de uma chuva que acabou com o equipamento de luz do show e que só pilhou ainda mais os loucos do povo de mullets me deu o melhor show da minha vida, perder minhas palmilhas e quase perder o passaporte por ação da chuva nem doeu.
- Mais importante de tudo - eles não vão pro show para filmar o show com seus iphones e câmeras, eles vão para, pasmem, curtir o show. E isso, para mim, diz muito mais do que eu poderia colocar em palavras.
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quarta-feira, 21 de março de 2012
Das penas e das culpas
Hoje eu tinha que assistir audiências para cumprir o conteúdo programático de uma cadeira que faço na faculdade.Como vara de família é um drama para assistir, já que eu preciso de um juiz compreensivo com a causa dos estudantes e partes que não se importem em ter mais testemunhas para a sua lavagem de roupa suja, preferi assistir as audiências da vara da infância e da juventude.
Para quem não sabe, essa vara é onde os menores infratores são julgados.
Tinham quatro hoje lá, todos acompanhados de pai e mãe, todos indiciados por tráfico.
Todos eram negros, de origem pobre, moradores de periferia.
Nos autos constavam matrícula em escola, presença em dia, além de dois deles trabalharem durante o dia. Eram beneficiados também da melhora econômica e do estado de pleno emprego que se encontra a região metropolitana do Rio de Janeiro.
Os meninos que foram pegos com 35 sacolas de cocaína e não resistiram à prisão, dirão os mais direitistas, tiveram oportunidades. Mas tiveram?
Apesar do discurso demagogo do juiz, que disse esperar daqueles meninos que eles se tornassem juízes, promotores e não perdidos na vida, é mesmo realista esperar que qualquer menino de origem humilde consiga ter uma acensão social razoável em sua vida?
Quem falhou não foram os meninos para com a sociedade ao " enveredar para o crime", mas sim a sociedade com eles ao lhes dar nada além de falsas oportunidades.
ps. A quem interessar possa, os 4 foram condenados ao regime de semi internato, de onde sairão, se fizerem tudo direitinho, em 6 meses.
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domingo, 11 de março de 2012
Perversa lógica
Estava saindo do meu curso hoje no centro do Rio, ali atrás do estacionamento Menezes Côrtes ( para quem não sabe, é um ponto bastante central da cidade) e me deparei com uma cena repugnante - 1 PM e 4 Guardas Municipais aplicavam uma surra num garoto ( parecia menor) que teria roubado alguém.
O menino estava dominado, contra a parede de uma loja e não oferecia resistência mas isso não impediu o PM de iniciar os trabalhos, desferindo vários tapas na cabeça do rapaz, gritando para ninguém ouvir, já que a rua estava deserta e eu era a única testemunha do "corretivo", que ele era um ladrão, um bandido um drogado.
Quando os Guardas Municipais chegaram, com seus cassetetes em mãos, deram algumas borrachadas com o cabo do porrete nas costelas do garoto, sabe como é, para se enturmar com seu poderoso amigo PM.
Eu, como cidadão, deveria ter efetuado a prisão civil dos 5, mas eu tenho certeza que ganharia deles algo entre risadas e uma surra grátis, então me senti forçado a deixar o lugar rapidamente e olhar de longe.
Ao fim do esculacho, eu pensei que o menino seria levado à delegacia, mas não foi, deixaram ele ir embora, surrado, para seu canto de esquina. O policial/julgador/senhor supremo do centro deserto já havia decidido culpabilidade e aplicado punição.
Tudo isso aconteceu a 1 quadra do Tribunal de Justiça e da ALERJ, só porque não havia ninguém olhando. Imagine o que acontece onde os olhos nunca chegam.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Lindenberg
Acho engraçado ver essa comoção toda em julgamentos dos assassinatos que ganham repercussão na mídia. Esse em particular teve grande repercussão ao tempo porque até entrevistado o sequestrador foi, durante o sequestro!
Eu não sou um especialista em protocolos e táticas anti-sequestro mas acho que deixar o cara falar com a Sônia Abrão é quase apertar o gatilho junto do assassino.
Mas não é exatamente por essa estrada que quero seguir, da imputabilidade criminal do comandante da operação, por ter sido ineficaz para dizer o mínimo, isso é menor no assunto, ainda que importante observar como policiais geralmente conseguem se safar das lambanças que ocasionalmente fazem, como se safam tantas outras categorias.
É a comoção que interessa. Comemorações exaltadas, uma festa porque a justiça foi feita. Mas o brasileiro médio, altamente inflamável em questões de grande repercussão é o mesmo que gera uma sociedade onde o raciocínio que levou o rapaz a matar a sua namorada é aceito.
Ou não é aceitável em muitos círculos que o homem enfie a mão na mulher ao descobrir que foi traído?
Um amigo do hoje condenado cometeu o mesmo crime no ano passado.
A causa das mulheres avançou demais, mas enquanto não quebrar o paradigma patriarcal e retrógrado que impera por aqui, a igualdade de gêneros nunca será alcançada.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Parem São Paulo
Domingo, na calada da manhã, a PM de SP juntamente com a Guarda Municipal de São José dos Campos promoveu uma reintegração de posse num bairro carente chamado Pinheirinho. O vídeo conta a história.
Novamente, muitos já falaram sobre o assunto e de maneira muito melhor do que eu poderia sonhar em fazer por aqui. Principalmente o sempre impecável Flavio Gomes.
Eu gostei foi desse negócio de falar da reação do povo.
Tá certo que a mídia, fidelizada a questões partidárias muito mais do que a informação, não cobriu o evento da maneira que devia, duvidando da versão oficial. Aliás, reproduzir a versão oficial é só o que a grande mídia faz.
Mas isso claramente não é desculpa. Quando acham que uma menina foi molestada no BBB, mesmo com o silêncio total da mídia sobre o assunto, a questão rapidamente tomou conta da internet e uma mobilização para jogar algum tipo de luz no assunto foi organizada.
E eu pergunto, como o povo do estado de SP não se mobiliza contra a barbárie que ocorre na sua terra? Não protesta contra esse governador opressor e autoritário, contra um prefeito que permite uma Guarda Municipal portar armas de fogo ( coisa que só vi no estado de SP) e finge que nada disso acontece com esses pobres seres humanos?
Se não tem compaixão pelos, em boa parte, descendentes de nordestinos e em sua totalidade cidadãos que vivem à margem da sociedade, tenham pelomenos o egoísta sentimento em mãos. Hoje tomam a liberdade daquele e eu não olho, ontem, a liberdade dos dependentes químicos, que recebem do governo do estado de SP um " tratamento de dor" para que saiam de seu vício, não tem liberdade, quando é que chega o dia que a minha liberdade será tolhida?
O pior é que havia um acordo pacífico pronto e selado entre as partes, só faltou a caneta do prefeito, que optou pela via repressiva e bárbara.
Ele e seus amigos continuam dormindo na sua cama quente, coberto por lençóis de fio egípcio e climatização, enquanto os pobres diabos do Pinheirinho amargam dias a fio em uma tenda elameada, só com a roupa do corpo, sendo tratados de uma maneira que, se fosse bicho, estaria bombando no facebook.
Não deixem criminalizar a pobreza. Paulistas que tanto reclamam da corrupção a nível federal, protestem contra essa negociata que ocorre diante de seus olhos.Parem São Paulo.
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